quarta-feira, 14 de abril de 2010

Eu nunca vou te abandonar


Ele acordou naquela manhã e como todos os dias nem bom dia deu. Buscou seu jornal na porta usando chinelo com meia, camisa pra fora da calça com a xícara de café na mão. A manchete avisava o que ele já sabia: hoje tem jogo ! Quarta-feira é dia sagrado, samba, cerveja e Coringão no bar com os amigos. Deu um beijo na testa dela, pegou a chave, jogou o jornal no chão e saiu. Ela sabia que não precisaria o esperar para jantar.

A decoração da casa mostrava a preferência do lar, ou melhor, a preferência dele. Sofá preto, almofada branca, cortina branca, mesa preta. Ela vivia uma vida que não era sua e o fanatismo do marido pelo time a aprisionava. O primeiro beijo que o casal trocou foi cortado por um grito de gol dos amigos dele. Ao deixar o altar arrancou a camisa e lá estava ela, a bendita da camiseta do Corinthians. O filho não teve escolha, já nasceu com o uniforme completo do timão. No almoço de domingo o assunto sempre era o mesmo e quando voltava pra casa depois de um dia de trabalho das dez palavras que falava oito era Corinthians. O gavião era fiel, mas ele ...

Cansada de separar as peças pretas das brancas na hora de lavar a roupa, naquela manhã ela sabia que não seria um dia qualquer. Planejou durante anos o que poderia fazer para dar um basta naquela situação. O momento era agora. Combinou com a vizinha que deixaria Marcelinho com ela depois da escola e foi se aprontar. A vingança por todo esse tempo de sufoco teria de ser perfeita. Abriu o armário, arrancou a última gaveta e lá no fundo estava o embrulho em um papel de seda cheirando a mofo. Tomou um banho, se perfumou e vestiu aquele manto sagrado que ela honrava mais do que qualquer coisa. Em direção ao bar, seu coração batia forte quase saindo pela boca. Avistou o marido lá no meio dos amigos, com um copo de chope na mão e sorriso no rosto. Fez questão de entrar e se plantar na frente dele. Sabia que seria arriscado, porque para homem você pode xingar a mãe, bater na vó, mas trair o próprio time é algo imperdoável.

- Cleusa, que pouca vergonha é essa ? Tira isso agora ! – gritou ele furioso

Ela então beijou o distintivo do Palmeiras como se beijasse a própria alma e retrucou:

- Tudo isso poderia ter sido evitado se há 10 anos atrás você tivesse me perguntado: “ Que time você torce ?”

Um comentário:

Tassyane disse...

Adorei seu blog!